Pea on board #8 // O parto

Pea on board #8 // O parto

A ansiedade começou às 37 semanas, quando contrações de 5 em 5 minutos me levaram às urgências. Agora que já passei pelo parto, sei que eram umas contraçõezitas de nada, mas tendo em conta a altura era muito mais dor do que o que estava habituada a sentir e por isso achava que podia ser o início da coisa. Mas não, o colo estava fechado ainda portanto nada de trabalho de parto.

O que eu sentia era uma dor na parte de baixo da barriga, praticamente igual às dores menstruais, mas que ia e vinha. Havia uma moinha constante e depois de x em x minutos a dor ficava mais intensa e sentia como se o bebé se estivesse a esticar todo na barriga – mas que não era o bebé, era uma contração.

O período que se seguiu foi de grande agitação. Não sentir o bebé, sangramento e contrações levaram-me ao hospital mais algumas vezes, mas nada de trabalho de parto. Confesso que esta agitação me deixou num estado total de stress, as dores e desconfortos já eram mais que muitos, dormir era mentira, e já só queria mesmo que o miúdo viesse cá para fora. Li tudo o que podia sobre como acelerar o trabalho de parto, caminhei e subi escadas mais do que as minhas costas e pernas podiam aguentar, mas não havia meio da coisa se dar.

Na terça-feira antes do nascimento do Martim tive consulta no hospital, já de 39 semanas e 3 dias e mortinha por deixar de estar grávida. A médica fez-me o “toque maldoso”, que efetivamente dói um bocadito mas nada de especial. A médica disse que poderia perder uns raiozinhos de sangue, para não me preocupar. A verdade é que saiu bastante sangue, como se fosse menstruação. Fiquei assustada mas não queria voltar a correr para as urgências para nada. Ao fim de uma hora estava novamente com contrações seguidas, com bastante mais dor, e lá fomos nós. Mas nada! Trabalho de parto que é bom, nem vê-lo. Voltei frustrada, chateada, stressada.

Quarta-feira sentia-me de rastos fisicamente. Dormi horas a fio durante todo o dia – coisa que eu NUNCA faço – e sentia-me completamente K.O. Na quinta-feira estava mais ou menos igual, apesar de as contrações terem sumido nesses dias, sentia uma moinha e sentia o corpo a desligar. Ainda assim chegou ao fim do dia e fui às compras ao  Continente, meio que a arrastar o corpo lá andei uma hora e tal a garantir que tínhamos o frigorífico cheio para os próximos dias – sem saber o que me esperava.

Nesse mesmo dia à noite cozinhei, jantei e sentei-me a ver televisão quando, do nada, sinto algo a escorrer. Não era como se estivesse a fazer xixi pelas pernas a baixo, apenas como se um corrimento demasiado líquido estivesse a sair, mas nada de quantidades exageradas – para quem tem corrimento com frequência certamente já sentiu mesmo sem gravidez. Fui à casa de banho mas como andava a perder algum sangue desde terça-feira, tinha um penso diário nas cuecas e por isso não conseguia analisar o que se estava a passar. Decidi então meter uma toalha por baixo de mim  no sofá e esperar a ver se saia mais alguma coisa. Saiu, e não era xixi por isso só podiam ser as águas. Foi tudo calmo porque não estava com dores. Despachámo-nos e fomos para a maternidade, onde chegámos antes da meia noite.

Pelo caminho nada de mais águas, apesar de pelo sim pelo não termos colocado um resguardo no meu banco, mas quando me deito na marquesa para ser examinada e o médico mete o espectro parecia uma pequena torneira. Tinham definitivamente rebentado as águas, se dúvidas existissem antes.

Por entre dramas de falta de enfermeiros que me deixaram imenso tempo à espera se ia ou não ser transferida para outro hospital lá fui internada. No Hospital São Francisco Xavier o trabalho de parto e o parto em si passam-se ambos no mesmo sítio. Existem uns quartos individuais onde as grávidas são admitidas, com um cadeirão para o acompanhante e com todas as traquitanas necessárias para todo o processo. Nesta altura as dores já se faziam sentir, mas ao contrário das contrações que tinha tido anteriormente desta vez não sentia a barriga a contrair, apenas sentia a cólica na barriga e no fundo das costas, que aumentava de intensidade em determinado momento e depois diminuía de novo. Até às 4 da manhã ainda foram sendo suportáveis, apesar de serem cada vez mais intensas e mais prolongadas, mas a essa hora já estava a entrar em desespero e pedi a epidural, que já estava nos planos mas que só pode ser ministrada ao fim de alguma dilatação. Estava com 3cm nessa altura. Este período antes da epidural foi o que mais me custou, o tempo parecia que não passava, o cateter na mão doía-me e incomodava-me horrores, as cintas do CTG apertavam imenso e eu só queria poder meter-me em alguma posição mais confortável para suportar as contrações mas era como se estivesse amarrada à cama.

A epidural não dói nada, sente-se umas picadinhas e tal mas nada muito diferente de outro cateter qualquer – e com a vantagem que depois de começar a fazer efeito nem se sente que se tem o cateter porque esta tudo adormecido -, a pior parte é que durante todo o processo não nos podemos mexer e se vier uma contração é difícil aguentar a dor sem fazer qualquer movimento. Por sorte tive uma contração mesmo antes de iniciarmos e depois durante o processo não veio mais nenhuma. No entanto o efeito não foi o que eu esperava. As contrações ficaram mais curtas mas continuava com dor bastante intensa e acabei por vomitar o jantar todo. Não estava a fazer efeito por isso levei um reforço e aí sim, o verdadeiro alívio. Foi tão bom que adormeci quase de seguida. Ainda podia sentir contrações, que eram desconfortáveis por ter de estar com as cintas do CTG, mas nada que me impedisse de descansar.

Às 6 e pouco da manhã as dores começam a voltar, já estava com 8cm de dilatação e levei novo reforço de epidural. Já começava a sentir imensa pressão na região do anus, mas com a epidural sentia-me muito dormente. Voltei a fechar os olhos.

Eram 8 e tal quando as dores juntamente com a vontade de vomitar regressaram. A dilatação estava concluída mas era necessário que o corpo passasse à fase de expulsão. A enfermeira reforçou a epidural e disse que se começasse a sentir vontade podia fazer força, e eu ia sentindo um bocadinho mas a minha força é que não existia.

Pouco antes das 10 da manhã a equipa entrou na sala para darmos início ao parto só que com uma epidural tão recente eu não sentia absolutamente nada. Todo o meu corpo do umbigo para baixo parecia borracha, e do umbigo para cima tinha dores horríveis no estômago. Meteram as minhas pernas em todas as posições e mais algumas na tentativa de eu conseguir fazer força mas por muito que eu me esforçasse pelos vistos não fazia força suficiente.

Durante uma parte do processo nem deixaram o Zé estar presente, eu já estava a ver que o miúdo nascia e ele não estava lá, mas depois lá o foram chamar e disseram-nos que iam ter de recorrer a uma ventosa porque o batimento cardíaco do Martim estava demasiado elevado e eu não estava a conseguir expulsar. Assim foi, fiz força só mais três vezes e o bebé estava cá fora. Na primeira continuou a ser random porque não sentia nada, na segunda senti o bebé a querer sair e fiz força novamente e saiu.

Foi uma mistura de muitas emoções, ele foi logo colocado na minha barriga e eu fartei-me de chorar como já previa. Entretanto o Zé cortou o cordão, trouxeram-no para o meu colo novamente e ao fim de um bocadinho em conjunto com o Zé vestiram-no e deixaram-no no berço próprio com aquecimento ali ao meu lado.

Eram 10h10 quando o Martim nasceu, mas ainda havia um longo caminho. Fiquei até às 11h20 a ser cosida, período durante o qual o meu corpo começou a entrar em colapso, a tensão a descer drasticamente, a tremer por todos os lados e a vomitar. Mas a equipa foi sempre espetacular, fizeram tudo o que puderam para me ajudar a sentir melhor.

Até às 14h e pouco estive no recobro. O Zé ia e vinha, o Martim mamou pela primeira vez e eu tentei comer qualquer coisa mas não entrava nada, só tinha mesmo sede. Depois fui levada para o quarto e disseram-me para chamar assim que me quisesse levantar. Não conseguia decidir nada, estava completamente K.O., sentia-me ainda super dormente. Entretanto a minha mãe, que estava na sala de espera desde as 6 da manhã, pode finalmente subir e entretanto com as restantes visitas da nossa família o tempo passou. Quando o enfermeiro veio para me ajudar a levantar percebemos que ainda ia demorar um bocadinho a conseguir, ao fim de uns segundos de pé comecei a ficar com calor, tonturas e vontade de vomitar. Voltei para a cama. O processo ainda se repetiu novamente, já mais perto das 22h, altura em que consegui ir à casa de banho com ajuda mas que tive de voltar quase de imediato porque estava a sentir-me mesmo muito mal.

Durante a noite precisava cuidar do Martim, e já sem o Zé lá foi essencial toda a ajuda da enfermeira e das auxiliares que ficaram sempre ao pé de mim não fosse eu cair para o lado com o bebé nos braços.

De hora para hora ia-me sentindo melhor, e isso continuou nos dias seguintes e tem continuado agora que já estou em casa. Os pontos doem, claro, há montes de movimentos que me custam e até mesmo levantar da cama é uma aventura, mas aos poucos vai passando.

O meu corpo parece estar pior do que quando fui para a maternidade. Ainda não consegui ver os meus tornozelos a nenhuma hora do dia – acho que não devo ter nenhuns sapatos que me sirvam, mas ainda não me calcei desde que vim para casa -, as pernas também estão super inchadas e até a cara ficou inchada mas já está a recuperar. A barriga ficou esquisita, parece uma barriga de 5 meses mas descida e com um ar flácido – embora tocando não o esteja, ainda se sente durinha – mas tem vindo a reduzir de dia para dia. Já se sabe, este não é um processo instantâneo, devagarinho o corpo voltará ao sítio e os 14kg ganhos serão aniquilados, mas por agora é comer saudável e descansar o máximo que consiga não só para ajudar na recuperação mas também para ter forças para cuidar do Dom Martim.

 

O texto ficou enorme mas queria realmente partilhar convosco todo este processo que, na minha opinião, até foi bastante positivo. As dores extinguiram-se com a epidural e se não fosse o meu corpo a reagir de uma forma estranha com vómitos e a questão da tensão, diria mesmo que foi um parto santo. A equipa do Hospital São Francisco Xavier foi incansável, profissionais excelentes desde que entrei até que me vim embora. Enfermeiras sempre preocupadas e atenciosas mesmo havendo falta de pessoal, auxiliares igualmente prestáveis – obrigada à senhora que ficou de plantão a ver-me tomar banho e ainda me ajudou a secar pernas e pés para garantir que eu não me sentia mal. Se em determinado momento tive alguns receios em relação a esta maternidade, depois desta experiência só posso mesmo dizer bem ♥

 

 

Follow:

17 Comments

  1. 8 September 2017 / 4:54 pm

    Obrigado por esta partilha tão honesta e pessoal.
    Foi bom saber como funciona realmente todo o processo – sendo que, obviamente, cada caso é um caso.
    Gostei muito de ler, mas fiquei cheia de medo 😛

  2. Andreia M.
    31 August 2017 / 10:55 am

    Muitos parabéns e muita sorte para esta nova etapa!!!
    Já sigo desde que o criaste e desde então tenho sido uma seguidora fiel, apesar de serem raras as vezes que comento. Mas desta vez resolvi para te felicitar por esta nova fase da tua vida, vais ser cheia de novos desafios e muitas provas de superação. Sou estudante de enfermagem do último ano e fiz recentemente um estágio em obstetrícia e foi todo um novo mundo que descobri, e se antes não achava agora acredito piamente que as mulheres são umas autênticas heroínas por passarem por esta experiência. É algo tão exaustivo e cansativo, e ainda a acrescentar todas as dúvidas que surgem e a responsabilidade por um ser pequenino é algo que não é para todos.
    Por isso, se tiveres alguma dúvida e se precisares tens aqui um futuro projeto de enfermeira 😉
    Beijinhos!

    P.S em relação aos pés inchados é algo completamente normal, demora ainda a passar. o melhor mesmo é dormir com os pés elevados com a ajuda de uma almofada e até recorrer ao uso de meias elásticas.

  3. Vânia
    30 August 2017 / 11:14 pm

    Parabéns 😀 consegui entender tudo o que sentiste… Beijinhos

    • 31 August 2017 / 7:53 am

      Oh tão bom, um beijinho

  4. 30 August 2017 / 10:24 pm

    Muitos parabéns mais uma vez e ainda bem que tudo correu pelo melhor.:)

    daniee.o.soares

    • 31 August 2017 / 7:54 am

      Obrigada 😀 beijinho*

  5. Elizabete M.S.
    30 August 2017 / 8:25 pm

    Boa noite Maria,
    Foi muito difícil para mim ler este post. Sigo o teu blog há alguns anos, embora não seja muito activa em comentários, mas desta vez tive de deixar aqui algo. Aproveita este momento e desejo tudo de bom. Perdi o meu filho às 42 semanas, durante o parto. Morreu pouco depois de nascer. Já passaram cinco meses e a dor não passa. Fico sinceramente feliz por tudo ter corrido bem e que de agora em diante todos os primeiros momentos com o teu filho sejam especiais, pois são o melhor do mundo.
    Beijinho.

    • 31 August 2017 / 7:53 am

      Oh querida, que coisa terrível, não consigo nem imaginar a dor e sofrimento. Muita força, não há nada que possa fazer com que passe mas o tempo ajudará a atenuar. Um beijinho enorme

  6. Sofia
    30 August 2017 / 9:05 am

    Parabéns Maria. Não deixa de ser engraçado quem acompanha o blog à vários anos ler este post. Espero que o Martim te traga muitas muitasalegrias ( de certeza que sim). Beijinhos

    • 31 August 2017 / 7:55 am

      Imagino, este blog tem crescido comigo e se para mim é engraçado pensar em como eram as coisas quando comecei e todas as histórias que já partilhei, imagino para quem está de fora :p Obrigada por continuares a acompanhar-me. Beijinhos grandes*

  7. Claudia
    29 August 2017 / 4:17 pm

    O post ė muito envolvente e emocional! Obrigada pela partilha e sinceridade. Quando lemos nem damos conta se o post ė grande ou não. Muitas felicidades e boa recuperação.

    • 31 August 2017 / 7:55 am

      Oh ainda bem, não gosto de escrever posts maçadores mas esta era uma história que não podia ficar por contar 🙂 Beijinho e obrigada

  8. 29 August 2017 / 12:48 pm

    Fico muito contente que a tua experiência tenha sido positiva… Espero também sair do parto com essa ideia, vamos ver…
    Agora boa recuperação e muita saúde para todos…

    • 31 August 2017 / 7:56 am

      Espero que sim 😀 vai correr tudo bem vais ver. Beijinho grande e obrigada por todos os comentários e por teres estado tão presente sempre no blog <3

  9. Ana
    29 August 2017 / 10:19 am

    Olá Maria, desde já parabéns pelo Martim, desejo muitas felicidades!
    Não sou das seguidoras mais fieis, vou lendo um post aqui e ali, mas gosto muito de ler o que escreves.
    Devido a esta minha “infidelidade”, não sei se antes de teres o Martim pensavas ter 1, 2, 3 (…) filhos. Se sim, como pensas agora, depois desta aventura do parto?
    Beijinhos!

    • 31 August 2017 / 7:59 am

      Olá Ana 🙂 obrigada pelo teu comentário. Durante muito tempo sempre pensei ter apenas 1 filho, no entanto nos meus planos mais recentes penso ter pelo menos mais um. Não mudou nada com esta aventura, aliás, agora que já sei algumas coisas (embora nenhum parto ou gravidez sejam iguais) acho que me sinto ainda mais preparada para voltar a ser mãe. A seu tempo. Beijinho*

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *