Reflexões sobre a depressão de domingo à noite

Reflexões sobre a depressão de domingo à noite

Como muitas de vocês sabem, nasci e vivi a maior parte da minha vida em Setúbal. É uma cidade, e não é assim tão longe de Lisboa como tudo isso, mas é um meio onde a mentalidade ainda é muito retrógrada em todos os aspetos e mais alguns.

Os meus pais não têm curso superior, vieram os dois de aldeias pequenas dos arredores da cidade e foram criados com a típica mentalidade de agradecerem por terem comida na mesa mesmo que sejam explorados e infelizes nos trabalhos que têm. Essa foi a educação que eu recebi, apesar de todos os incentivos para tirar uma licenciatura a ideia dos meus pais era que eu com 17/18 anos fosse capaz de escolher o que queria fazer o resto da vida, estudasse para essa profissão e quando conseguisse um emprego desse graças a Deus e o agarrasse com unhas e dentes e nunca mais largasse, de preferência até à reforma.

Comigo a coisa saiu um bocado furada. Em menos de 4 anos percebi que não era feliz num curso e mudei para outro, e desde aí nunca mais parei de fazer mudanças na minha vida. Já trabalhei em vários sítios, já fiz várias coisas diferentes, e para além de trabalhos por conta de outrem tenho ganho algum dinheiro em pequenos trabalhos e projetos por minha conta que tenciono transformar no meu rendimento principal a curto/médio prazo.

Com o passar dos anos, e o afastamento daquela mentalidade tão fechada em que se vive agarrado ao medo da mudança e arriscar é uma palavra que não existe no dicionário, tenho vindo a olhar para as coisas de uma maneira muito diferente da da maioria das pessoas à minha volta – e nem precisam ser pessoas incultas ou que tenham vindo da aldeia.

Pelo que vejo à minha volta o objetivo principal da maioria das pessoas é adquirir coisas. Todos, ou quase todos, acham que seriam mais felizes se tivessem mais dinheiro para poderem comprar isto ou aquilo. Somos constantemente bombardeados com a ideia de vida ideal que passa por sermos milionários e todos os luxos da vida estarem ao alcance da nossa conta bancária. Mas não será que, em muitos casos, seriamos muito mais ricos se tivéssemos tempo para gastar apropriadamente o nosso dinheiro no lugar de o gastarmos num milhão de coisas supérfluas que só fingem que preenchem o vazio que um horário das 9h às 18h, 5 dias por semana, nos deixa? Podes mesmo dizer que um aumento de rendimento, por si só, te faria muito mais feliz? Mesmo que não tivesses tempo livre para gastar esse dinheiro?

Ok, um dia vamos poder ir para a reforma. Mas se pudesses escolher, seria mesmo aos 67 anos que quererias viver todas as aventuras da tua vida? Aliás, será que nessa altura vais estar em condições físicas para o fazer?

Sim, não vou negar que existam pessoas que preferem ter coisas do que ser ou fazer. Há pessoas para tudo, por isso certamente também existirão estas. Aliás, sabemos que em Portugal é muito comum ter uma vida de aparências. Há quem passe fome em casa para ter o carro X ou Y só para fingir nas redondezas que vive extremamente bem.

Mas eu nunca fui essa pessoa. E quem me acompanha por aqui há quase 8 anos sabe que nunca fui de procurar ter coisas caras para me exibir. Procuro, isso sim, ter experiências, e obviamente a maioria delas não são de borla. Se eu pudesse escolher, escolhia ter mais tempo para gastar o meu dinheiro no lugar de ter apenas mais dinheiro, isso é certo.

Apesar de ainda estar MUITO longe do ponto onde quero estar, sinto-me cada vez mais perto principalmente por estar cada vez melhor definido na minha cabeça o que é que eu quero efetivamente para o meu futuro. Como é que eu me imagino, que tipo de vida quero ter – e não, não é a vida de acordar às 7 todos os dias para ir trabalhar, estar em filas de trânsito, aturar chefes insuportáveis, fazer um trabalho que na maior parte do tempo não me satisfaz, almoçar a correr, chegar a casa em cima da hora do jantar, aproveitar 2 ou 3 horas depois do jantar para fazer qualquer coisinha mas sempre preocupada em ir dormir a horas porque se não descansar não vou aguentar o dia de amanhã no trabalho. Esperar a semana toda por sexta-feira, passar o fim de semana a tentar encaixar tudo o que quero fazer e tudo o que precisa ser feito porque durante a semana não há tempo, e chegar às 19h de domingo com sentimentos que se assemelham a uma depressão.

Faz-me muita muita confusão ouvir pessoas a lamentarem-se das suas vidas, a dizerem que não são felizes a trabalharem no que trabalham, nos seus relacionamentos, ou noutro qualquer aspeto da vida, que vivem uma vida mecanizada sem grande ânimo mas quando lhes pergunto o que é que fazem para mudar isso a única coisa que me respondem é “Não é assim tão fácil”. Bem, depende do significado de fácil ou difícil, a verdade é que se NUNCA fizerem nada, NUNCA vão sair do mesmo ciclo vicioso e NUNCA se vão sentir felizes. Isso é garantido.

Qual a pior coisa que poderia acontecer se largasses esse trabalho que te deixa infeliz? Seria o fim da tua vida? Existiriam impactos permanentes? Pensando noutra perspetiva, se fosses despedida/o do teu trabalho hoje mesmo, o que farias para manter o controlo financeiro? Existiriam soluções, certo? Então se em casos extremos em que não tens escolha as soluções existem, existem igualmente se fores tu a escolher.

Claro que não estamos a falar de largar tudo, não fazer nada da vida e viver às custas de outras pessoas ou do Estado. Estamos a falar de arriscar mais na busca de uma vida com mais momentos de felicidade. Seja mudando de trabalho (é mais fácil do que parece, há quanto tempo não envias CV’s ?), criando o próprio negócio ou trabalhando como freelancer.

No meu caso sei que a minha felicidade não passa por trabalhar por conta de outrem, ou pelo menos fazê-lo num regime presencial que exija 40 horas semanais só de escritório mais a hora de almoço e todo o tempo envolvido desde que me levanto para me despachar até chegar efetivamente ao escritório e também o caminho de volta. Feitas bem as contas, isto pode ascender facilmente às 63 horas por semana. Se assumir que passo pelo menos 7 horas por dia a dormir, sobram-me apenas 22 horas de segunda a sexta de tempo livre. É surreal!

Em Portugal o trabalho remoto por conta de outrem ainda é bastante raro, por isso a maior parte das pessoas que opta por um estilo de vida com mais tempo fá-lo trabalhando por conta própria. Mas também nada me impede – nem a mim nem a ti! – de ir trabalhar para fora de Portugal. Filhos não são um impedimento. Estar perto da família é muito bom e muito giro, mas não são eles que têm de lidar com o teu estado depressivo e frustrado por teres um trabalho de m!#%@ e não teres tempo nem para te coçares. Basicamente todas as coisas que usamos como desculpas para não seguir determinado sonho são mesmo apenas isso, desculpas, e usamo-las para camuflar o medo que temos de arriscar. Temos medo de ficar pior, temos medo de não ter dinheiro – mesmo que, pensando bem, saibamos que em último caso conseguiríamos fazer qualquer coisa para desenrascar algum dinheiro temporariamente -, temos medo de largar os bens materiais, temos medo do que as outras pessoas vão pensar porque fomos formatados para achar que só somos bons se formos todos diretores que ganham muito dinheiro e têm casas com piscina e um carro de luxo à porta. Caramba, tanta coisa errada que nos está a impedir de ser felizes!

 

1.O que é que te impede de te sentires mais feliz?

2.O que é que podes fazer para mudar isso? A longo mas também a curto prazo.

3.Porque é que ainda não o fizeste?

4.Será que os teus medos têm mesmo fundamento?

 

Não te lamentes. Pensa, sendo verdadeiramente realista e esquecendo os pessimismos, o que é que podes começar a fazer hoje mesmo para que muito em breve tenhas a vida que queres ter. Se não começares nunca, nunca irás lá chegar. Não deixes para amanhã!

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1 Comment

  1. Inês Correia Martins
    21 August 2017 / 6:34 pm

    Gostei muito do post! Parabéns

    Beijinhos,
    inesmartinsxx.blogspot.pt